
Victor Raquel
Cronista
Por Vezes o Que Parece É!
Vem isto a propósito da recente tragédia que ocorreu numa estrada do Alentejo.
Como diz Helena Matos, uma conceituada cronista, nos últimos 30 anos o Estado foi capaz de implementar, regulamentar, taxar, inspeccionar, e registar galinhas, porquinhos e vaquinhas. Conseguiu meter-se com os galheteiros e com o azeite. Conseguiu proibir os sacos de plástico e as lâmpadas normais. Conseguiu imiscuir-se no trabalho e na cama dos cidadãos. Agora já dorme com eles. Conseguiu, e como Helena Matos mais uma vez refere, impor uma espécie de Big Brother fiscal. Conseguiu interferir na sexualidade das pessoas, até dos mais novos. Ou seja, conseguiu fazer tudo e mais alguma coisa. Só não conseguiu fechar uma estrada que ameaçava ruir, nem no ano passado proteger os seus cidadãos de catástrofes como os incêndios.
Mas há mais!
Umas dezenas de vândalos entram numa academia de futebol e partem tudo. Para todos os efeitos estão presos e acusados de terrorismo (provavelmente o Estado não sabe o que é o terrorismo).
Dezenas de pessoas vulneráveis tais como as mulheres vítimas de violência doméstica, idosos, e crianças são todos os dias agredidos e o Estado pouco faz. A polícia prende apenas e só para os agressores serem soltos nas horas seguintes.
A própria polícia é agredida. A mensagem dada é. Ok! Vai lá para casa até seres julgado. Mas se se toca em jogadores de futebol ficam no saco até… até! Até ao julgamento.
Só que em regra os julgamentos borregam ad eternum colocando em causa o próprio conceito de justiça, que deu uma valente cambalhota, porque é mais grave bater em jogadores de futebol do que em velhinhos.
O Estado conseguiu isto tudo, mas não consegue cumprir a razão para a qual existe. O seu fim último ou teleológico. Proteger e salvaguardar a vida e propriedade dos seus cidadãos.
Isto no plano interno porque se vamos para o plano da defesa o cenário não é melhor.
Sem falar da questão de Tancos, cujos contornos exactos não se conhecem, nunca, desde o final da monarquia, as Forças Armadas estiveram tão depauperadas moral e materialmente.
Mais grave do que a falta de pessoal, e de equipamento, é na degradação das forças morais e anímicas que, à semelhança do que ocorre na nação, se verifica uma grande derrocada.
Mas o problema não é exclusivo dos militares.
Olho para o lado, para os professores, e vejo o caos instalado. Agredidos, desrespeitados, vilipendiados por pais e pelo dito «sistema» que os desenraíza e não os protege, estão à mercê dos elementos.
Olho para os médicos, e enfermeiros, e é uma sangria desatada. Fogem deste jardim à beira mar plantado como o diabo da cruz. Ou então, seguem para o sector privado. Para o tenebroso sector privado.
Olho para os empresários, e com excepção de alguns, todos dizem que começa a não valer a pena. Não há estabilidade, há excesso de regras sem sentido, excesso de regulamentos, excesso de impostos, excesso de taxas, excesso de leis, só excessos. Agora até onde arrendar uma casa, e a quem, se intrometem. Só falta, como no Estado Novo, a licença para o isqueiro.
Metem-se em tudo menos naquilo que deviam. A liberdade económica é algo que não consta no dicionário.
Legislam e taxam tudo e mais alguma coisa, quer mexa quer não mexa. Do aparcamento automóvel às viagens dos turistas. Dos carros a diesel à luz que podemos ter em casa. Do tipo de sacos de usamos para o lixo ao tipo de copos que usamos para beber.
E o resto? Proíbe-se, claro!
Quem pode bate com a porta. Quem não pode vai aguentando e tenta.
Mas este panorama sufocante não é só por cá. É geral em toda a Europa. Veja-se o que está a acontecer em França por causa dos combustíveis. Tumultos e motins quase todos os dias. Observe-se bem o que se passa em Itália. Veja-se o que fez a Grã-Bretanha que recentemente bateu com a porta.
Do alto da sua imensa sapiência os europeus (nomeadamente as elites políticas de Bruxelas) dizem que tudo vai bem. Que se caminha para o paraíso na terra onde todos cheiram bem. Que o problema está nos EUA onde vigora o neoliberalismo selvagem, seja lá o que isso for.
Pois é!
É por isso que a Europa recebe todos os dias milhares de migrantes norte-americanos que fogem do capitalismo selvagem.
Os aeroportos, os portos, e as estradas ao longo da Eurásia, via Sibéria, passando pela Rússia, estão pejadas de migrantes americanos em direcção à segurança da Europa, especialmente para Portugal, onde existe efectiva protecção do trabalho, direitos adquiridos a granel e taxas com fartura.
O que se está a passar em Setúbal e na Auto Europa é revelador.
Uma empresa que ao longo dos anos tem vindo a funcionar, paga salários acima da média, e emprega milhares de pessoas, nos últimos meses foi tomada de assalto.
Quando quem manda (os empresários) entenderem que é demais, pura e simplesmente vão fazer as malas e bater com a porta.
Depois quero ver onde param os direitos e a tal segurança no trabalho.
A culpa?
Ah! Essa vai ser do neoliberalismo selvagem que oprime.
Mas isso já nós sabemos.
A responsabilidade nunca é dos iluminados que por ai andam.
Siga!
