
Victor Raquel
Cronista
Populismos, Unhas de Gel e Munição Real
No passado domingo evocou-se o dia armistício com uma cerimónia militar.
O nosso PR proferiu um discurso catita. Às páginas tantas afirmou que os soldados portugueses combateram contra a ignorância, a exclusão, a liberdade, a opressão, por uma Europa aberta, pela justiça e tal.
Fiquei boquiaberto! Então ninguém disse ao Sr. PR que o seu discurso está todo errado?
Os soldados portugueses combateram porque os mandaram. E se esmiuçarmos bem, muito bem, o porquê de ali estarem, o poder político tinha que ter vergonha por ter enviado para o teatro de operações mais duro e brutal de sempre (até à data) milhares de homens sem preparação, sem sustentação e sem motivação.
Hoje sabemos que os nossos aliados ingleses não queriam os portugueses na Flandres. Que em sua opinião só iam estorvar. Hoje sabemos que foi por imposição do poder político português (os chamados guerristas), com a conivência francesa, que milhares de soldados foram tratados como pouco mais do que carne para canhão.
Também sabemos hoje que os ingleses os utilizaram para esse efeito. Quando teve início a Operação Georgette (ofensiva alemã) os ingleses tinham um plano. E que nesse plano o CEP pouco mais era do que gado para imolar.
Agradeçamos à República a forma como milhares de soldados portugueses foram tratados e sacrificados em nome de… em nome de tudo menos do que o Sr. PR referiu.
Depois o Sr. PR também se esqueceu de referir que as causas da 1 Guerra Mundial não foram (muito longe disso) a liberdade, a Europa inclusiva versus exclusiva, aberta-fechada, da xenofobia ou das rejeições. As causas do conflito foram bem claras. Sem querer esmiuçar foi a Realpolik a martelo (que falta já então fez Bismarck o seu conceptualizador), os interesses nacionais levados a extremos e muita, mas mesmo muita, truculenta euforia.
Neste verdadeiro caldeirão em que todos, mas rigorosamente todos, tiveram responsabilidades, eis que a recente república portuguesa se colocou em bicos de pés.
Com essa opção levou milhares de soldados para a morte (na Flandres e em África), à instabilidade política, e a 40 anos de Estado Novo.
A tal Europa inclusiva, das liberdades e não sei o quê, saltou para o abismo. Uma feroz ditadura comunista na Rússia, para o fascismo em Itália, e para o Nacional-Socialismo na Alemanha. Passados 20 anos a tal Europa da liberdade, integradora e tal, assiste a outra guerra ainda mais devastadora (Portugal teve o bom senso de se manter afastado).
Sr. PR, temos que nos distanciar dos populismos! Até para dissertar!
E não custava nada ter dito umas palavras mais de acordo com a realidade.
Os que morreram mereciam. Só assim podemos honrar o seu sacrifício. E o seu sacrifício não foi pequeno. Pagaram o preço mais elevado que se pode pagar – o preço de sangue.
Mas isto digo eu que não percebo nada disto.
Depois, cá pelo burgo, houve supina indignação pela visada (uma senhora deputada) contra os órgãos de comunicação social. E porquê? Por foi catada a pintar as unhas na AR.
Que horror! Que Horror! O que faz o mau jornalismo. Se a foto fosse em bikini na praia ainda vá. Agora pintar as unhas na AR é mau, muito mau, jornalismo.
Pois é! Eu também acho que sim. Que o parlamento é o local mais adequado para pintar as unhas. Sei lá, assim como colocar rímel no carro. Só que no carro dá multa. No parlamento não.
Mas o meu pasmo não se fica por aqui.
Ouvi com estes que a terra há-de comer, num canal de TV, a seguinte pérola a propósito da caravana de migrantes que agora atravessa o México em direcção ao inferno neoliberal opressor.
Trump disse «Se os militares e a polícia forem agredidos tem ordem para abrir fogo sobre os atacantes».
No tal canal foi dito – assim – sem mais!
Exército da Nigéria abre fogo contra manifestantes após Trump ter proferido esta declaração.
Lá está! Isto está tudo ligado!
É claro que em África, e na Nigéria em particular, não é costume as forças policiais, e militares, dispersarem manifestações com munição real.
Na Nigéria foram mortos pelas forças de segurança manifestantes porque o Sr. Trump proferiu uma baboseira qualquer.
A Sra. Deputada tem razão. O jornalismo está cada vez pior.
Depois admiram-se que a malta vá para as redes sociais e para a internet.
Siga!
