Victor Raquel

Cronista e Apresentador OMtv

Pepponi e D. Camilo

 

Ao que tudo indica este jardim à beira mar plantado atingiu ponto tal que nem com D. Camilo se endireitava.

  1. Camilo era padre conhecido na região, entre outros atributos, por ter um murro tão potente como o coice de uma mula. E quando o seu rebanho saía da linha frequentemente escapava-lhe rija bojarda para normalizar o assunto.

Nesta personagem ficcionada por Giovanni Guareschi, como não podia deixar de ser, existe o seu arqui-inimigo Pepponi, o presidente da câmara de Ponteratto (nos filmes imortalizada na vila de Brescello), personagem com a qual se travava frequentemente de razões, nem sempre com urbanidade, sempre à italiano, com muito espalhafato, ironia e cinismo.

Um oceano filosófico e político separava os dois. D. Camilo padre católico conservador e o presidente da câmara ateu comunista. O caldo entornava-se frequentemente entre os dois. Ambos declaravam querer o melhor para a sua vila, e para o povo, mas o caminho a seguir era diametralmente oposto. Os discursos eram inflamados. Pepponi nos frequentes discursos à população dizia alto e bom som que os reaccionários deviam ser todos fuzilados (onde é que eu já ouvi isto?). D. Camilo por seu turno não se ficava atrás invocando a ira divina e excomunhão contra os ateus comunistas (também já ouvi isto).

Os ânimos exaltavam-se com frequência. No final (peripécias imortalizadas nos filmes por Fernandell) o caos prevalece. Soluções? Nenhumas!

Itália do final e período pós II Guerra? Ou Portugal no século XXI?

As semelhanças são muitas. As diferenças também. (uma verdade de La Palice)

Todos declaram que o povo e a melhoria das condições de vida são o principal e único objectivo da sua acção. Tal como Peponni os canhotos ditos progressistas enchem a boca com coisas giras tais como os direitos, a liberdade, a justiça, a igualdade, e isso. Tal como D. Camilo a reacção também. Como Pepponi afirmam à boca cheia que é preciso combater os fascistas (ou é faxistas?), a reacção, o grande capital e o pequeno também (agora até querem um novo imposto para contas de 100 mil euros). Ao mínimo sinal de heterodoxia sai libelo de discriminação, racismo, xenofobia, misoginia, selvajaria (também contra os animais) e as mais diversas fobias contra tudo e contra todos. Até por causa do clima. Os ditos ultra-neo-conservadores morderam o isco e fazem bandeira disso tudo mais a não discriminação, e igualdade, e inclusão, e assim.

Mas há diferenças em relação à Itália do pós guerra! Poucas e subtis, mas há!

Ao contrário de Pepponi, que o dizia sem papas na língua, cá no burgo só falta sugerir o encosto à parede perante um pelotão de fuzilamento dos hereges, perdão, fascistas ou isso. Digo isto porque apelos à morte cívica abundam contra os «adversários» (Vejam as mirabolantes propostas contra Fátima Bonifácio que vão desde processos em tribunal até à expulsão da universidade onde lecciona).

Os destros nacionais ao invés de se inspirarem em D. Camilo e responderem à letra (não com a invocação de pragas divinas, claro está) alinham pelo diapasão e cedem em toda a linha.

A oposição também de ideias não existe.

Às taxas, impostos, e limitações diversas de inspiração digamos, climática, responde a oposição com declarações de emergência… climática.

O turismo é outro caso curioso. Se D. Camilo fosse real diria que foi uma benesse divina esta enorme vaga de turistas. Por cá indignam-se, à direita e à esquerda, contra os turistas. Os epítetos contra eles lançados tais como «descaracterizam as cidades», «fazem lixo», «ocupam tudo» e «roubam as casas aos locais» num país normal faziam corar de vergonha quem os profere. Façamos um teste. Em vez da palavra turistas substitua-se por migrantes. A isto chama-se o quê? Na minha terra chama-se xenofobia e para os patrulheiros da virtude daria motivo para um processo-crime em tribunal. Como são turistas e para cá se deslocam apenas durante alguns dias deixando no processo milhões de euros (melhora a economia e gera postos de trabalho) a coisa assume contornos de defesa da identidade dos bairros históricos (que estavam literalmente ao abandono). No tempo de D. Camilo era capaz de dar direito ao seu famoso tabefe.

Perante os problemas do SNS a oposição propõe a criação do Ministério da Promoção da Saúde. Perante o flagelo dos incêndios… moita carrasco. Nem uma palavra. Na economia e empresas grassam ideias mirabolantes para complicar o trabalho de cada um. Na oposição… nem uma palavra. Ou melhor… pode-se sempre complicar a coisa com mais normas e regulamentos. Na Defesa o CEMFA avisa que a situação é crítica. No governo diz-se mais ou menos isto. «Quem não está bem muda-se». Na oposição não ocorre nada para contrapor. Na educação propõe-se tudo e mais alguma coisa, menos ensinar com qualidade. Na oposição… nadinha. Enfim… podia continuar ad eternun que o contraponto não existe. É o vazio!

Concluindo: O caos prevalece. Soluções? Nenhumas.

Para terminar esta posta de pescada ocorre-me a La Paliçada mor (afinal como o artigo)

O Senhor de La Palice

Morreu em frente a Pavia;

Momentos antes da sua morte,

Podem crer, ainda vivia.”

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