Victor Raquel

Cronista e Apresentador Omtv

Os Cavalos Também se Abatem!

 

São de facto notáveis os tempos que vivemos.

Digo isto porque se bate muito com a mão no peito afirmando que somos muito democratas, e tolerantes, e respeitadores das diferenças, e humanistas, e avançados, e assim, mas à primeira acareação com o mundo real… zás… escorregam e foge-lhes a boca, o dedo, e não só, para a verdade que, em regra, tende sempre para o mesmo lado – a sinistra (sinistra é esquerda em italiano. Sim, eu falo estrangeiro).

Então não é que andam para ai partidos políticos muito ligados aos direitos dos animais (acho muito bem) que defendem a interrupção do sofrimento humano com base em critérios, digamos, discutíveis (eutanásia), mas que perante um cavalo em sofrimento (ferido numa tourada) interpelam o parlamento para pedir explicações sobre o sucedido?

Levar o abate de um cavalo ao parlamento? Mas então não se aplicou ao cavalo a receita que defendem para os humanos? Acabar com o sofrimento de forma rápida?

Já sei! Não! Porque o problema não é o cavalo. O problema são as touradas!

Penso que não estou a exagerar porque na mesma semana em que isto aconteceu o mesmo partido tira o tapete a um dos seus membros porque denunciou maus-tratos a outro cavalo apontando o dedo, não aos toureiros, mas a determinada etnia. Este cavalo não interessa se sofre. O importante é que quem o faz sofrer não pode ser nomeado, ao contrário dos toureiros.

É assim! Há cavalos de primeira e de segunda categoria!

Mas também há pessoas de primeira e de segunda.

As de primeira são todos aqueles que se enquadram no estereótipo dos coitadinhos, vulneráveis, e oprimidos, definidos por quem manda. Independentemente de o serem ou não. As de segunda são todos os outros, como os habitantes do Prédio Coutinho em Viana. Estes são de segunda. E digo isto porque até nas cadeias não se atreviam a tanto. Ai do director, ou directora, que mandasse cortar a luz e a água aos reclusos. E se o fizessem caia o Carmo e a Trindade. Os donos da verdade, da tolerância, do respeito, e do progressismo, batiam imediatamente o às de trunfo dos direitos humanos, da dignidade, e dessas coisas que em regra se invocam. Mas as autoridades locais fizeram-no. Ainda por cima sem ordem judicial em total desrespeito por um dos pilares do Estado de Direito – a propriedade.

A propriedade, nomeadamente a privada, neste jardim desfigurado por inúmeros mamarrachos vale o que vale. Ou melhor, vale impostos, canseiras, cargas infindáveis de trabalhos, obrigações diversas, e pouco mais, porque ao que tudo indica o que hoje é teu, amanhã pode ser nosso. Nunca se diga desta água não beberei porque o precedente está criado.

Também está criada grande agitação com um artigo escrito por uma historiadora, Maria de Fátima Bonifácio de seu nome, que desanca a lógica das quotas (ou é cotas? Sim é isso) para outras raças e etnias. Neste caso podemos falar de outras raças e etnias sem medos porque é chique, e progressista. Noutros casos, como o do cavalo, não se pode falar disso porque é racismo.

Tanto não se pode falar porque, ao que tudo indica, já conta com uma queixa-crime às costas movida pela patrulha dos costumes que não perdoou tamanha desfaçatez. Vejam lá! Escrever um simples artigo de jornal!

Em minha opinião não vejo qual o problema em aceitar a diferença de opinião. Até porque é muito simples a equação! Os que se identificam com o teor do artigo dão por bem empregue o tempo de o ler e o dinheiro que pagaram. Os que não gostaram, ou não concordaram com o artigo, sempre podem, e à falta de melhor uso, enviar o jornal para a Venezuela. Consta que por lá existe grande carestia de produtos de higiene. O papel de jornal longe de ser a solução perfeita, mitiga o problema. Desta forma resolviam-se dois engulhos com uma penada (nem me atrevo a utilizar a metáfora dos dois coelhos e do cajado – cruzes credo). Tiravam de tão delicadas vistinhas o infame artigo e ajudavam o povo venezuelano a ultrapassar as conquistas do socialismo bolivariano.

Bom… recentrando a minha posta de pescada.

Mas qual a fundamentação para o processo em tribunal? Crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

Ena c’um catano!

O vosso humilde escriba leu o artigo e não viu uma linha, quanto mais um parágrafo, onde se incitasse à discriminação, ao ódio, e à violência.

O que vejo, sem margem para dúvidas, é a utilização dos tribunais para calar quem pensa diferente do que está autorizado pela brigada dos bons costumes.

E isso na minha terra tem um nome!

Ou melhor… vários.

Mas não digo porque é feio!

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