Victor Raquel

Cronista

O Triunfo dos Porcos.

 

George Orwell, talvez o autor que mais me influenciou, falou-nos dum mundo onde um governo autoritário se impunha através de uma nova linguagem. Esta nova fala (Newspeak) recorre a um linguajar dirigido, de vocabulário delimitado, e a uma gramática restrita. Restritiva até.

E qual o objectivo?

Colocar entraves à liberdade de pensamento, limites à expressão, e condicionar a vontade da pessoa humana.

Em suma restringir a liberdade… também de pensar… que em tese ameaçam o regime (Big Brother) e o partido (Party).

No seu livro 1984 (de ficção? Escrito em 1946) Orwell diz que o povo da Oceânia utilizará exclusivamente a novilíngua (newspeak) no ano da graça de 2050.

Olhando em redor parece que Orwell apenas errou na data. Ao invés de 2050, tudo indica que no ano da graça de 2018 a novilíngua já se impôs. E de uma forma mais profunda, e mais intensa, do que apenas encapotar determinada realidade social, ou sistema político.

Com certeza que se lembram das designações de certas unidades políticas onde vigoravam sistemas totalitários, mas com nomes pomposos a sugerir liberdade e democracia, tais como a República Democrática Alemã, ou a República Popular Democrática da Coreia. Nestas unidades políticas não havia, nem há (Coreia do Norte) democracia. Mas auto-designavam-se de democráticas. Também não eram populares. Mas o povo servia de justificação para os piores desmandos. A justificação do regime pela palavra. No Ocidente não era necessário recorrer a estas subtilezas. A antiga Alemanha Ocidental simplesmente se designava República Federal da Alemanha, porque havia liberdade e democracia. Não precisavam de artifícios.

Isto no século XX, porque no início do século XXI, tudo indica que os postulados da novilíngua impostos por uma elite bem pensante (como bem referiu Orwell) migraram e colonizaram todos os aspectos da vida, impondo-se com pouca resistência. Da política, à vida privada.

São inúmeros os exemplos que podia dar, mas centrar-me-ei no mais recente.

Agora pretendem acabar com enunciações populares inócuas, que mais não são do que formas de expressão, e que remetem para desafios a superar com vigor, consubstanciadas no famoso «agarrar o touro pelos cornos», ou que apelam à capacidade de atalhar caminho e de improviso «matar dois coelhos com uma cajadada». Pretendem igualmente erradicar canções infantis antigas como a intemporal «atirei o pau ao gato» porque representam violência e maus-tratos aos animais.

Vá lá que para já deixam as «Pombinhas da Catrina» em paz. Já mais confusão me faz ninguém dizer nada acerca da canção «Que Linda Falua» onde uma mãe assume que tem de optar por deixar para trás um dos seus filhos. Não me passa pela cabeça o sofrimento de uma mãe ter de optar por um dos filhos. Mas este sofrimento é entre humanos, logo a canção não está sujeita à reprovação dos censores.

De facto, hoje em dia os lobos já não são maus. Mau é o caçador, e o capuchinho vermelho, que no final matam o lobo e lhe abrem a barriga para de lá tirar a avozinha. O lobo é bom. Comeu a avozinha para sobreviver. O caçador é mau. O capuchinho vermelho também. Matam o lobo porque sim, porque lhes apeteceu.

Deturpação de conceitos, de valores, inversão ética, e moral, que a novilíngua ajuda a delimitar e a impor.

Em sentido literal qualquer pessoa, até um bebé, sabe que agarrar um touro pelos cornos é perigoso. Para ele não para o touro. Também sabe que não se atiram paus aos gatos. Que não se faz mal aos animais. Sabe que são expressões, e canções, que entraram no nosso imaginário e que não passam disso mesmo. De expressões e de canções. Que são ditas e cantadas em momentos de sociabilização e de lazer. Que são expressões populares, e pouco mais.

Mas a tirania do politicamente correcto, do Party e do Big Brother de Orwell, não admite heterodoxias ao pensamento único. E esse pensamento diz com todas as letras que é preciso recentrar a posição e o papel do ser humano no mundo. O homem já não é o centro e a medida de todas as coisas. O ser humano é apenas mais um… no meio de todas as coisas. E este raciocínio é perigoso. Perigoso demais. Se a vida humana está ao nível da vida de um qualquer animal, estamos mal. Muito mal. E porquê? Entre as centenas de razões que podia enumerar, porque nunca vi um macaco escrever um livro, ou compor uma peça de música. Porque a empatia é algo que distingue a humanidade. Empatia essa que vejo faltar para com o nosso semelhante. Muito recentemente vi muitas pessoas saberem o nome de um cão que matou um bebé, mobilizarem-se para evitar o seu abate (agora em novilíngua diz-se eutanásia – palavra desde sempre aplicada a humanos), mas poucos, muito poucos, saberem o nome do bebé.

E, assim sendo, para além de cumprida a «profecia» de 1984, estamos perante o triunfo dos porcos que Orwell tão bem escreveu.

 

Siga!