
Miguel Correia
Cronista
O GRANDE SEBENTINI
Os palhaços terminaram o número e a arena do circo ficou vazia. As luzes apagaram-se criando um clima de mistério e suspense. O locutor anunciou, com pompa e circunstância, que chegara a hora de assistir a algo nunca antes visto! Um homem iria desafiar e controlar os mais perigosos répteis da Natureza: o grande Sebentini!
O público levantou-se! Não por respeito, mas sim, pela altura do artista. Afinal o Grande Sebentini tinha pouco mais de 1,60 de altura. Com dois passos de dança e música a condizer pediu aplausos enquanto se deslocava para as caixas que guardavam os mais terríveis predadores rastejantes que há memória. Uma anaconda gigante foi a primeira a ser arrastada da caixa. Depois de algum esforço físico – motivado pela sua baixa estatura – lá conseguiu pousar o bicho no recinto da arena. Procurou a segunda caixa e repetindo os mesmos gestos de esforço braçal conseguiu juntar mais umas tantas quantas víboras à anaconda. Palmas para o Grande Sebentini! No final dos aplausos mais uma carga de esforço muscular para colocar as minhocas gigantes dentro da caixa.
Sei que esperavam mais. Afinal limitou-se a passear os répteis. Nenhum truque ou encantamento através da flauta. Nada! Mas o momento mais esperado envolvia o caixote número três. Lá dentro, um terrível crocodilo. Abriu a caixa e… nem sinal dele! Constrangido voltou a utilizar a força para tirar o espécimen da caixa. O público teve a oportunidade de ver o focinho do pobre e boca com dois ou três dentes. Com grande esforço (penso que o crocodilo pesa tanto como o domador) saiu da caixa e ficou imóvel na arena. Sim, acreditem, já vi malas de pele de crocodilo mexerem-se mais depressa. Um estranho burburinho instalou-se na plateia. Seria sono? Seria velhice? Seria outra coisa?
Com uma enorme vontade de acabar o espectáculo – de domínio dos répteis mais terríveis da Natureza – o Grande Sebentini agradeceu os aplausos e saiu de cena. A responsabilidade de retirar a “bela adormecida da Lacoste” ficou entregue aos ajudantes do circo que foram ovacionados de pé quando depositaram o pobre crocodilo e fecharam a tampa da caixa. Bravo!
