
Miguel Correia
Cronista
NO RESCALDO DO MASSACRE
Caro leitor, fico deveras feliz por saber que está, neste momento, a ler a minha crónica. Não por satisfação pessoal ou puro egoísmo, mas sim, porque conseguiu escapar ileso (pelo menos fisicamente) ao massacre consumista – com nome inglês – que nos atacou, sem dó nem piedade, nos últimos dias de Novembro. A moda do “Black qualquer coisa” instalou-se de vez na nossa cultura. Já não basta a época de saldos. Graças à crise, o comércio recorre a todas as estratégias para limpar as carteiras dos Tugas. E cartões de crédito também! Prevê-se um mês de Janeiro bastante longo e penoso para alguns. Será apropriado e irónico: um “Black January” (Janeiro negro) depois de tanta despesa!
Se algumas lojas aderiram à moda dos preços loucos durante a sexta-feira, outras estenderam o prazo aos restantes dias do final de semana. Uma atitude reveladora da falta de ética comercial com objectivos bem definidos: tomar de assalto os consumidores! Compre! Tem desconto! Palavras mágicas para os pobres assalariados indefesos e fartos de levar encontrões nos corredores sobrelotados dos espaços comerciais. Para sobreviver a este massacre de mensagens, e-mails e publicidade, resolvi abstrair-me de toda e qualquer tecnologia com promoções manhosas de electrodomésticos, música, livros, automóveis, concertos, mobiliário e até contratos de crédito (pré-aprovados)! Uma loucura! Vesti a pele dum info-excluído e, curiosamente, tenho a plena noção que o tempo passou e não perdi novidade alguma. Talvez quezílias políticas ou roubos ao nível da arbitragem. Algo banal e corriqueiro.
Os truques matreiros e enganadores foram, entretanto, revelados nas redes sociais. Em alguns casos os descontos nunca o chegaram a ser. Inflacionaram preços para criar uma mera ilusão. As pessoas compraram, naquele dia, algo que não quiseram anteriormente por não ter um mísero autocolante a dizer “desconto”. Os constantes alertas não surtiram efeito! Em breves momentos com duas ou três idas à carteira, os Tugas, assistiram ao desaparecimento do subsídio de Natal que tanto custou a ganhar! Restam as sacas vazias e sentimento de arrependimento. Há que pensar positivo neste tempo de alegria e paz consumista. Faltam algumas semanas para o Natal! Ainda há tempo para voltar a desperdiçar dinheiro ou aumentar a dívida do cartão de crédito. Seguramente não vão faltar massacres. Digo, oportunidades.
