Victor Raquel

Clonista

Nem a vergonha impõe limites!

 

Soube esta semana que Mark Twain, um dos mais importantes escritores norte-americanos, está a ser alvo da fúria dos indignados de serviço. E qual a razão do novo auto de fé?

Racismo!

Assim… racismo!

Nem a vergonha na cara lhes coloca freio nos dentes.

Passados cerca de 100 anos da sua morte um conjunto de advogados, e personalidades ligadas ao partido democrata, exigem que os seus livros sejam retirados das escolas, e porque não, das livrarias. Prescrevem esta censura à obra de um escritor que marcou gerações de miúdos e graúdos com a sua escrita maravilhosa, consubstanciada em livros bem conhecidos por todos nós, tais como As Aventuras de Tom Saywer e Huckleberry Finn, O Príncipe e o Mendigo, Joana D’Arc, ou Um Estranho Misterioso, só para citar alguns, e que nos fizeram rir e sonhar.

É acusado de algo que não fez, nem era. Mark Twain era sim um fervoroso anti-esclavagista e bateu-se pelos direitos civis dos afro-americanos.

Depois, se lermos bem a sua obra, o que salta de imediato à vista não é o racismo (que nunca ninguém viu). A mensagem que nos lega, pelo contrário, destaca as virtudes da amizade, da solidariedade, do companheirismo, da rectidão, da iniciativa… da honradez.

É sob todos os pontos de vista bela e inspiradora. Por isto, e muito mais, é considerado o pai da moderna literatura norte-americana. Por tudo isto, e muito mais, o seu legado irá continuar a inspirar as novas gerações de leitores tão carentes de valores fundamentais que Twain nos legou. Destaco um deles. Travessura de criança não é chico-espertice. Twain viu bem. Os fortes vínculos da amizade, e da iniciativa pessoal, fizeram os EUA grandes. E a sua mensagem irá continuar a enriquecer como pessoas os novos leitores. Quando os meus filhos tiverem idade vão tomar com certeza contacto (nem que seja em BD e depois em vídeo) com os traquinas do Mississípi, que mais não eram do que crianças irreverentes, mas sentimentalmente bem estruturadas. Como se costuma dizer, com um belo fundo.

Mas a sanha revisionista não ocorre apenas nos EUA.

Mais a sul, no México, o Presidente daquele país exige à Espanha um pedido de desculpas. Motivo? Que peçam perdão pela invasão de há 500 anos, pelos massacres cometidos, e pela destruição dos antigos templos sagrados.

Temos pano para mangas! Senão vejamos.

Ninguém explica ao senhor que cometeu um erro grave que em história se chama anacronismo? A história não pode, nem deve, estar sujeita aos nossos juízos de valor éticos e morais. E porquê? Porque os homens de há 500 anos não pensavam e agiam como nós. A vida e o mundo eram diferentes. Pensavam de forma diferente. Não possuíam os nossos valores, nem se regiam por eles. Direitos humanos no século XVI, tal como os concebemos hoje? Impossível! È um erro. Uma enormidade.

Mas, e em abstracto, se utilizarmos a lógica que o Sr. PR mexicano pretende aplicar, permitam-me o seguinte exercício retórico.

Quem dominava a região quando da chegada dos espanhóis era o designado império asteca. No seu processo expansionista utilizava a força armada para submeter os povos vizinhos e incorporá-los nos seus domínios. A forma como os tratava era, mais coisa menos coisa, idêntica à forma como se trata o gado.

Todos os anos milhares de homens, mulheres, e crianças, eram mortos em sacrifícios rituais como oferenda aos deuses. São célebres as técnicas de extracção do coração da vítima ainda viva. Tinha de estar viva para cumprir o ritual.

Quando os espanhóis chegaram, ficaram horrorizados com esta verdadeira orgia de sangue, violência, e morte. Nomeadamente os padres.

As coisas azedaram e os conquistadores (como ficaram conhecidos os espanhóis) viraram-se contra os astecas. Eram cerca de 500 homens. Não era possível (tendo em conta a tecnologia da época) a 500 homens submeter um império que conseguia mobilizar milhares de homens em armas.

Recorrendo a um hábil jogo de alianças, e inteligente uso da força armada, os espanhóis conseguiram o apoio de muitos dos locais para acabar com a tirania. E conseguiram. Destruíram efectivamente o império asteca. Mas só o conseguiram porque tiveram o apoio dos locais que viram uma janela de oportunidade para acabar com uma unidade política que os escravizava, torturava, e matava.

É este exercício retórico legítimo? Se sim, os espanhóis acabaram com a barbárie. O Sr. PR que se lembre destes factos. A arqueologia não se desmente.

Depois, e também em abstracto, se os espanhóis não tivessem chegado à região não havia México de todo, e ele próprio, como pessoa, não passava de um enigma no futuro.

O senhor PR não deve ter espelhos em casa. É que vendo a sua fisionomia não parece ter genes ameríndios de todo.

Para concluir! Os espanhóis chegaram há 500 anos. Destruíram, sim senhor, o império asteca, recorrendo a um notável jogo de utilização da força armada e do vector diplomático (alianças com os locais) para o neutralizar.

Mas formalmente já não têm qualquer vínculo decisório com o México há 200 anos. E mesmo antes quem mandava na região não era Espanha. Eram os locais.

Quem manda na região há mais de 400 anos são os mexicanos. E o que são os mexicanos? São uma mistura racial, e cultural, riquíssima. Cultura de síntese maravilhosa que pôs fim aos sacrifícios rituais e deu outra dimensão, e dignidade, à vida humana.

Há alguma desculpa a pedir?

Se há comece o Sr. PR por fazer um acto de contrição pelo estatuto de (a)narco-estado a que este maravilhoso país chegou! Sem espanhóis! Com mexicanos no poder e a mandar!

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